(Source: eu-queria-me-desculpar, via pricadete)
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Problemas da vida literária infantil…
(Source: pookiepicturesque, via i-sarcastically-deactivated2011)
Plim!
Acabou o tempo, gira, próximo.
Medicina tem um negócio estranho, uma peculiaridade, para rebuscar meu discurso. Não é marcando X em papel que você salva vida de paciente. Não basta saber, é preciso saber fazer. Foi aí que alguém teve uma brilhante ideia - temos que bolar um jeito de testar se nossos estudantes sabem fazer coisas! Brilhante para ele, que deve ter recebido um prêmio ou algo do tipo, para mim foi um saco.
Eu faço provas práticas desde que eu entrei na faculdade. É um negócio estrategicamente feito para deixar o cara nervoso. Você fica numa sala isolada, rodeado de pessoas com olhar apreensivo. A cada intervalo regular, um apito toca em um canto distante. Mãos abrem uma porta e puxam um aluno para o local da prova. E aí chega uma hora que é a sua vez, quando você já não sabe se está com medo ou quer que aquilo acabe logo.
Até agora, eu só tinha feito prova prática de ciências básicas. Uma série de bancadas com peças anatômicas ou microscópios em que tudo que era pedido de mim era que eu soubesse o nome da estrutura e anotasse num papel. Nada muito elaborado. Só que você só tinha quinze segundos para saber qual estrutura era e lembrar o nome! Não podia se dar ao luxo de ter um branco na hora da prova. É como numa emergência, as informações tem que estar na ponta da língua em um piscar de olhos - ou então você reprova na matéria (ou o paciente morre…).
Só que hoje foi minha primeira prova prática clínica. Tire as peças anatômicas e coloque pessoas no lugar. Pessoas de verdade. Agora é esperado que eu consiga fazer um exame, orientar uma conduta, dar um diagnóstico em cinco minutos. Uma série de passos meticulosamente descritos que eu tenho que seguir, com voz segura, olhar sagaz e uma atitude do tipo “fique calmo, eu sei de tudo”. Rá, até parece. A primeira sala que eu entrei, exame simples, de tireoide, tinha feito umas 20 vezes já, eu quase tropecei em cima da paciente. Era como se minhas mãos e pés tivessem sido substituídos pelos de um parkinsoniano do mais alto grau.
Sua cabeça tenta articular alguma coisa coerente…
Respira fundo, você estudou, o que é para fazer primeiro? Droga, não lembro, e agora? Calma aí… Calma nada, o tempo tá passando. Fala alguma coisa. Falo o quê? Qualquer coisa! “Oi, tudo bem?” Isso não, que tipo de pergunta idiota é essa? É claro que ela não tá bem, você tem que descobrir por quê! Vá fazer o exame! “Ok senhora fulana de tal, deixa eu fazer o exame e …”
E o que pareceram dez segundos depois, Plim! Acabou o tempo, gira, próximo. E outro paciente, e outro exame, e outra conduta. Fica mais fácil com o tempo, admito. No final eu já conseguia conversar com o paciente em vez de ficar dialogando na minha cabeça. E em retrospectiva, você acha até que se saiu bem. É uma outra estratégia uma prova prática. Você tem que impressionar o examinador com seu conhecimento e segurança, ao mesmo tempo que se desdobra para fazer tudo em cinco minutos. Imagino que ao final dos seis anos eu já terei aprendido alguma coisa sobre saber fazer. Por enquanto, são dois verbos muito desafiadores para andarem juntos.